
Uma das reflexões mais loucas que existem, na minha opinião, gira em torno da morte. No mundo de hoje, viver é sorte e morrer é a falta dela. Antigamente as pessoas morriam velhinhas, tanto que a idéia que se tem desde criança - e somos educados assim - é que a mamãe e o papai, só morrerão quando estiverem bem velhinhos. Há um bom tempo atrás existia uma espécie de ordem (salvo em alguns casos) na qual os filhos enterravam os pais e assim por diante. Morria de trás pra frente, do mais velho para o mais novo. Era como se as pessoas fossem acabando e dando lugar a um novo ciclo dos mais novos que eu algum tempo , morreriam também.
Essa idéia está mais do que ultrapassada, principalmente para quem vive no Rio de Janeiro. Aqui a morte viaja em cápsulas de arma de fogo e sem escala. Uns morrem de doenças, outros de velhos e uma maioria assustadora, de bala perdida. São crianças, jovens e bebês, não existe mais um critério válido para se saber se o seu último dia está chegando. Depende da sua sorte. Se você estiver no lugar errado e na hora errada, já era. Muitos falam de destino. Mas não acredito que Deus tenha traçado o destino de alguém baseado no "você morrerá de bala perdida, andando para casa depois de um dia cansativo de trabalho". Não faz sentido, não pra mim. Até Deus, coitado, perdeu o controle em meio a essa guerra urbana e acredito que haja superpopulação no céu graças a isso.
Morrer. Até a palavra é feia. Você já se perguntou como que vai ser o dia em que você simplesmente...morrer?! Pelo o que eu sei, dos meus pelo menos, nunca nenhum voltou para me contar como é que funciona isso. Mas acredito que morrer não deve ser legal. Nem para quem vai e nem para quem fica, é claro. Dizem que a sensação é a mesma de quando estamos dormindo, que não fazemos idéia do que acontece ao nosso redor mas sabemos que estamos vivos pois estamos respirando. Sorte de quem acorda. E quem não acorda?! Como deve ser?! Você já pensou no dia em que seu cãozinho morrer?! Pelo o que sei, não existe um serviço funerário para animais, como o das pessoas. Vai ser você quem irá levá-lo para ser enterrado ou cremado, em seus braços, ninguém vai fazer isso por você. Eu que sou muito apegada aos meus, sofro só de pensar que um dia meus bichinhos vão embora. E quem vai ter que arcar com isso, sou eu.
Acredito que diferente dos animais de estimação, com gente seja menos pior esse lance de morte. Imagina se quando algum parente ou amigo seu morresse , você tivesse que carregá-lo até a funerária, mortinho da silva, no banco do carona do seu carro?! Para as pessoas, graças a Deus, a maioria dos procedimentos são efetuados pelo serviço funerário, que você contrata e não precisa se preocupar com nada, além de sofrer. Mas o seu animalzinho, é você quem vai ter que carregar. Já passei por isso e digo com gabarito: é a pior sensação do mundo carregar um animalzinho morto nos braços, tendo a certeza de que nada mais pode ser feito por ele.
"Viver é foda, morrer é difícil", já dizia o poeta. Eu sinceramente não gostaria de ir tão cedo e se pudesse escolher, desejaria que os meus, os que eu amo, durassem para sempre. Ou até quando eu durasse, para que eu não os visse mortos, para que eu não sofresse com isso. Nem eu por eles, nem eles por mim. É muito louco pensar que hoje estou viva e amanhã posso não estar. E isso acontece todos os dias no mundo inteiro. Minha Dinda Cleyde, num dia estava ótima e no outro, com morte cerebral. E no dia seguinte, com o corpo imóvel em um caixão. Ver aquilo me fez refletir. Eu hoje, mais do que nunca não deixo nada por dizer. Está tudo muito sem final, sem começo, sem pé nem cabeça, está tudo uma bagunça. Nunca se sabe quando será a última vez. A última vez MESMO.